Augusto dos Anjos - Budismo moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Conto de Machado de Assis - Eterno!

Há quem considere esse o melhor conto da língua portuguesa. Exageros a parte, é uma obra de arte. Segue o texto completo.

- Não me expliques nada, disse eu, entrando no quarto; é o negócio da baronesa.

Norberto enxugou os olhos e sentou-se na cama, com as pernas pendentes. Eu, cavalgando uma cadeira, pousei a barba no dorso, e proferi este breve discurso:

- Mas, meu pateta, quantas vezes queres que te diga que acabes com essa paixão ridícula e humilhante? Sim, senhor, humilhante e ridícula, porque ela não faz caso de ti; e demais, é arriscado. Não? Verás se o é, quando o barão desconfiar que lhe arrastas a asa à mulher. Olha que ele tem cara de maus bofes.

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Vinícius de Moraes: Soneto do amor perfeito

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo

Audio livro do Harry Potter em minhas caminhadas

Adoro literatura infanto-juvenil, escolho com cuidado os livros dos meus filhos, que ainda não chegaram à alfabetização. A paixão pela literatura veio com esses autores que eram capazes de me deixar sem ar ou fazer sonhar com outros universos. Reconheço nisso o mesmo talento e importância de um Kafka. Além de ser ótimo para o estilo. Via de regra, uma criança de 7 ou 8 anos não é capaz de passar duas horas seguidas em qualquer atividade, por isso o livro tem lá seus 20 a 40 minutos para criar o desejo que levará a uma nova sessão de leitura.

Sei que a maioria dos críticos considera a série Harry Potter, da escocesa J. K. Rowling, uma literatura menor. Não faço crítica literário, mas mesmo que soltasse uma, vez ou outra, não estaria alinhado com eles. Acho bem escrito, uma trama bem costurada e com uma perspicácia  adicional: cada livro da séria é um tanto mais complexo que o anterior. Isso faz com que o leitor do primeiro livro, lá pelos 10 anos, não considere o quinto da série uma obra imbecil. A obra começa com Harry aos onze anos de idade. Cada livro cobre um ano letivo e amadurece com o personagem.

Fiz essa pequena introdução para mudar de assunto. Sempre que posso vou e volto a pé do trabalho. Felizmente a frequência desses passeios tem sido bastante alta. Uma caminhada em torno de 40 minutos em ritmo razoável, e 30 forçando o passo. Geralmente com música, um vício meu.

Há alguns dias resolvi mudar. Às vezes não estou no clima pra música e acabava apelando para os noticiários radiofônicos. Ai que tédio. As bolsas subiram, as bolsas desceram, o presidente diz que não sabia, os candidatos se atacaram e trânsito… bom, com o trâfego de veículos é que não quero me importar nessa hora. Então resolvi comprar o meu primeiro audio livro. Justamente o penúltimo da série Harry Potter. Esse tinha ficado pra trás na lista das próximas leituras e essa pareceu uma boa oportunidade.

Encomendei na amazon o livro 6, Harry Potter and the Half-Blood Prince, com narração de Jim Dale. Não foi barato, US$ 47,00 mais frete. Apesar de falarem em 18 a 30 dias, chegou em uma semana. Pois bem, ontem comecei a escutar, e a primeira opinião é muito satisfatória. Achei que fosse me perder em pensamentos e não “capturar” o história, mas isso não aconteceu. Merito de Dale, em uma narração muito boa.

Sem dúvida deixei um naco de preconceito pra trás e posso dizer que esse foi o meu primeiro audio-livro.

Deixem seus comentários, já leu um audio livro? Sim? Não? Gostou? Por que?

Sá de Miranda - Soneto

Poeta do classicismo pouco lembrado no Brasil.

O sol é grande, caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão que sói ser fria:
Esta água, que d’alto cai, acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó coisas todas vãs, todas mudaves,
Qual é o coração que em vós confia?
Passando um dia vai, passa outro dia,
Incertos todos mais que ao vento as naves!

Eu vi já por aqui sombras e flores,
Vi águas, e vi fontes, vi verdura;
As aves vi cantar todas d’amores.

Mudo e seco é já tudo; e de mistura,
Também fazendo-me eu fui doutras cores;
E tudo o mais renova, isto é sem cura.

Manuel Bandeira - Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Sun Tzu - A arte da guerra

Um dos livros mais famosos de todos os tempos, A Arte da Guerra de Sun Tzu. Está disponível agora aqui no blog, em sua versão integral.
Creio que poucas obras não-religiosas foram tão utilizadas como referência quanto esta. Ainda que o general chinês nunca teve outra intenção senão escrever sobre a preparação para uma guerra, suas observações foram adotadas por 9 entre 10 gurus dos negócios e  gestão de empreendimentos.

Independente de qualquer coisa, esse livro certamente entra na minha lista das 100 obras que não devemos deixar de ler.

Sun Tzu - A arte da guerra.

Shakespeare - Poema de amor e amizade

Perguntei a um sábio ,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade…
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas ,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.

Ano Machado de Assis

No final de 2007 foi publicada no diário oficial uma lei que transformou 2008 no “Ano Nacional Machado de Assis”. A canetada em si não produz efeito algum, mas as editoras começam a fazer sua parte. Serão vários os relançamentos, há até compilações inéditas.

Claro que Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro estão nos pacotes, mas quem quiser conhecer a parte menos divulgada do universo Machadiano pode se deliciar com Histórias da meia-noite, uma compilação de contos, e Toda a Poesia de Machado de Assis, que traz centenas de poemos publicados em jornais e revistas ao longo da sua vida.

Abaixo um poema de Machado, certamente não é o melhor da sua carreira mas deixa claro a facilidade com que escrevia.

Bons Amigos - Machado de Assis
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente! Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

D. Marluce

Heloisa abriu tópico sobre blogs literários, ou com estilo literário, na lista da blogosfera. Enquanto leio as respostas encontro pequenas delícias, entre elas esse texto chamado “vil metal” no glayson.blogspot.com. Muito bom.

Agradeço à Heloisa.

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